SOBRE ACONCHEGO: QUANDO O MELHOR LUGAR DO MUNDO CABE NO SEU QUINTAL

Quando somos recém-formados em Arquitetura e aquela angústia do “e agora, por onde começar a vida profissional?” nos assola é comum começarmos a esboçar projetos de reformas ou repensar o layout de interiores da casa onde moramos ou dos nossos parentes mais próximos, como um ponto de partida.

Em 2012 me graduei no IAU (Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP) e já emendei o processo seletivo do mestrado na mesma instituição. No início de 2013 eu havia começado as minhas atividade acadêmicas da pós, mas ainda tinha aquele desejo de querer projetar e construir algo autoral, fazer valer o diploma tão almejado, me sentir “arquiteta de verdade”.

Comecei, então, a pensar num novo design para o quintal (sim, eu adoro essa palavra) e algumas modificações internas na casa dos meus pais em Birigui – SP.

Acabou que eles abraçaram a causa, pensando em ter um espaço mais amplo de convívio para abrigar a família em períodos de férias e feriados (atualmente, apenas meus pais moram em Birigui. Eu, meu irmão e outros parentes estamos espalhados por aí, no mundo rss).

Anteriormente, o nosso quintal era muito árido, sem qualquer vegetação, nenhum respiro no piso para permeabilidade da água, havia uma cobertura baixa de telhas de barro, uma área de churrasqueira e uma lavanderia/quartinho da bagunça. 

A proposta projetual veio pensando em amenizar o calor (Birigui está numa região muito, mas muitoooo quente) da área de lazer e ampliar o espaço,  inserindo elementos como a água e a grama. A madeira também foi muito bem-vinda no pergolado e no deck ao lado da piscina, que recebeu mobiliário, iluminação e vegetação que deram um toque todo acolhedor ao projeto.

A piscina foi pensada seguindo o alinhamento da parede, para economia de espaço, e com bicas de cascatas que são a diversão nos períodos de dezembro a março (e acabaram ganhando até uma função terapêutica para minha mãe). 

A cobertura de telhas aparentes foi substituída por uma laje com pé-direito mais alto, permitindo a retirada de pilares que atrapalhavam a circulação e ventilando melhor a área da churrasqueira. 

A lavanderia foi reduzida e inserida no corpo da casa, possibilitada com a redução do tamanho do banheiro social. 

O depósito foi realocado para um armário em alvenaria feito no corredor lateral da casa, reaproveitando as prateleiras existentes de concreto. A madeira proveniente da demolição da cobertura do “quartinho da bagunça” se transformou na pérgola que abriga o pequeno santuário à Nossa Senhora Aparecida.

Acabou que conseguimos o que queríamos, sem muito quebra-quebra, com o envolvimento de toda família, e reaproveitando o que já tínhamos de materiais disponíveis.

A casa dos nossos pais ou avós é sempre um dos lugares mais aconchegantes que conhecemos, com todas as referências lúdicas que ela abriga. Mas, essa reforma trouxe uma nova vitalidade para nossa casa.

No nosso pequeno quintal coube todo nosso amor pela família, todas as brincadeiras, os dias ensolarados, as bandeirinhas de junho, as conversas ao anoitecer, o desejo de estarmos juntos sempre que pudermos. Traçamos planos durante todo o ano para combinarmos as festas de carnaval, Natal, Réveillon, e outras que acontecerão no nosso jardim.

E aí, eu confirmei o que durante a faculdade eu já suspeitava: não há razão para arquitetura se ela não possibilitar esta vivência que nos aconchega, as trocas sensíveis de experiências entre seus usuários e as dinâmicas multiplas do dia-a-dia.