CASA E LAR

"(...) ao pensar uma casa, não podemos pensar como uma simples distribuição de cômodos, um simples abrigo - pensamos como a distribuição de funções e relações".

Ilustração: Krysthopher Woods para "Idle Magazine" (UK) *

 

Outro dia participei de uma discussão sobre a diferença entre casa e lar. Seria possível ter mais de um lar? É possível restabelecer um lar?

Eu já pensei muito sobre isso, pois já vivi isso. Portanto, discordei do ponto da pessoa que dizia que o lar é único, e você não consegue levá-lo para outro lugar físico.

Já me mudei muitas e muitas vezes, seja dentro da mesma cidade ou para outras, e até para um país diferente! E nessas idas e vindas passei por muitas casas e também por lares.

Quando nasci, meus pais moravam em uma casa em Pirajuí, mas logo se mudaram para outra, onde cresci e morei até meus quase 15 anos. Nessa época, por diversos motivos, tivemos que sair dessa casa onde eu e meus irmãos havíamos crescido, onde a Samantha, nossa cachorrinha (que infelizmente não está mais entre nós), havia chegado, onde eu havia brincado com meus amigos de infância (que trago comigo até hoje), onde já tínhamos passado por momentos muito felizes, mas também, por vezes, muito dolorosos. Onde tínhamos nossos vizinhos queridos, enfim.

Saímos claramente de um lar e nos mudamos para uma casa. Nos meses que se seguiram foi notória a falta que o lar nos fazia. Ninguém havia pensado muito sobre isso no momento da mudança, mas todos sentimos.

Eu gostava da casa para onde nos mudamos, era divertida, próxima da casa de uma amiga, em cima de um locadora de vídeos, ficava numa esquina e, como era uma sobreloja, tínhamos uma vista incrível da cidade, a partir de uma grande varanda. Não vou mentir, passamos ótimos momentos lá. Mas aquele lugar nunca foi um lar, foi apenas uma boa casa. E de lá eu saí de Pirajuí, aos 16 anos, para morar em Bauru, uma cidade quase vizinha, e terminar o ensino médio.

O tempo passou e aos poucos meus pais começaram a construir a casa em que moram hoje, em cima da loja que temos em Pirajuí (e que é mais velha do que eu). Na época, eu havia acabado de entrar na faculdade, então não pude dar muitos pitacos, mas posso ver a marca da minha mão em vários detalhes.

Quando eu tinha 20 anos nos mudamos para lá, nessa época eu nem morava mais em Bauru, já estava em São Carlos, na faculdade, mas a olhos vistos cheguei em um lar.

Não me pergunte como, mas instantaneamente o nosso lar, que havia ficado pairando pelo ar por cinco anos, estava restabelecido (ao menos para mim, mas acredito que para todos nós). E não acredito que seja apenas porque nós construímos a casa, e sim porque nos permitimos estabelecer relações fortes com o lugar, e vice-versa.

A mesma coisa com os tantos apartamentos pelos quais passei nos últimos anos. Nenhum deles foi meu lar, mas o que estou hoje, da onde escrevo essas palavras, é. Ele traz aquela sensação incrível de pertencimento. É meu e do meu marido, onde entramos casados pela primeira vez, onde aos poucos vamos arrumando da nossa maneira. E mesmo quando, logo após nos casarmos, nos mudamos meio que no susto para a Califórnia, esse apartamento em Campinas nunca deixou de ser nosso lar, mesmo não sabendo se voltaríamos ou não para ele. E voltar foi tão natural quanto é chegar na casa dos meus pais.

Meu ponto é, existe uma grande diferença entre uma casa e um lar. O lar é um local constituído de relações fortes, onde você se permite criar laços - com as paredes, com as janelas, com as portas, com os pisos, com as pessoas que dividem esse espaço com você. A casa que abriga um lar nunca é apenas uma casa.

Talvez, realmente, algumas pessoas nunca mais consigam restabelecer um lar perdido, mas é possível, se tanto você quanto o ambiente permitirem.

Por isso, ao pensar uma casa, não podemos pensar como uma simples distribuição de cômodos, um simples abrigo - pensamos como a distribuição de funções e relações. A casa tem três quartos, dois banheiros, uma sala e uma cozinha. O lar tem o espaço de dormir, o espaço de cozinhar e comer, o espaço de jogar conversa fora e também de conversar sério, tem seus filhos crescendo em meio ao jardim, seus netos brincando na piscina, os churrascos de domingo, seu cachorro dormindo embaixo da escada, ou naquele canto bem fresquinho, onde quase não bate sol.

Construir uma casa é uma missão muito preciosa. Por isso deve ser feita com carinho, com atenção. Deve ser projetada exatamente para quem vai habitá-la, permitindo que essas relações possam acontecer - e só assim é possível que essa casa se torne (ou, se preciso, se retorne) um lar!

 

* fonte da imagem: https://www.flickr.com/photos/krysthopher_woods/15954190392/

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