O AMOR PELAS CIDADES

Hoje pela manhã li o texto da Folha que dizia que o urbanista dinamarquês Jahn Gehl "sente pena de quem trabalha na Faria Lima" (quem quiser ler o texto pode clicar aqui).

Isso reacendeu a minha vontade de escrever sobre um tema que estava um pouco guardado e que pra mim faz cada vez mais sentido: o amor pelas cidades (ou a falta dele).

Eu sempre fui muito urbana e gosto de estar inserida em grandes cidades. E sempre me considerei mais arquiteta do que urbanista.

No entanto, foi durante o tempo em que passei nos Estados Unidos que vi, pela primeira vez, essa chave virar, e me senti mais urbanista do que arquiteta, devido a uma série de experiências que vivi e lugares que conheci.

Enfim, nessas idas e vindas, depois de viajar bastante e após re-equilibrar esses dois lados, uma coisa ficou ainda mais clara pra mim: nos falta amor pelas nossas cidades.

É muito fácil ler uma matéria como essa e simplesmente despejar toda a nossa insatisfação por São Paulo, por exemplo. Mas devemos parar e analisar onde estamos errando e qual o nosso papel.

Se nos limitarmos a lamentar por nossas cidades, como queremos que elas melhorem? Se passarmos a vida desejando “morar em outro lugar”, “morar em outro país”, e isso nunca acontecer, teremos passado a vida lamentando?

Devemos exigir mudanças e fazer tudo o que está a nosso alcance para que elas sejam alcançadas. Mas nós só lutamos verdadeiramente por uma causa se temos amor por ela.

Pensemos em dois pontos-chave de São Paulo: o trânsito e a violência.

O problema do trânsito só será resolvido (ou pelo menos melhorado) a partir do momento em que tivermos um transporte público melhor, ciclovias bem feitas e bem dimensionadas, calçadas adequadas e, por favor, árvores que façam sombra em nossos caminhos e que ajudem a criar microclimas para amenizar o calor que invariavelmente vai emanar do asfalto (as tais “ilhas de calor” das quais tanto ouvimos falar).

Melhorias nesse sentido já começariam a trazer mais pessoas para as ruas, um dos pontos mais importantes para amenizar exatamente a questão da violência.

A escritora Jane Jacobs utiliza o termo “olhos da rua”, com o qual simpatizo muito e que nada mais é do que a presença das pessoas nas ruas. Para ela, a segurança dos “olhos da rua” poderia ser superior à segurança passada pela polícia. Inclusive, Jacobs os elenca como um dos três pilares para que haja mais segurança nas cidades, ao lado da nítida separação entre o espaço público e o espaço privado (afinal, se são os olhos das pessoas que serão os “guardas” dos espaços, deve-se haver uma delimitação para isso) e das calçadas que devem ter usuários transitando ininterruptamente, durante todas as horas do dia e com propósitos diferentes.

Mas para que as pessoas utilizem as ruas precisamos que haja dinamismo nos bairros, funções distintas: as casas, os prédios residenciais e de escritórios, comércio funcionando durante o dia e durante a noite, além de espaços públicos e parques generosos e bem planejados - todas essas questões estão ligadas ao planejamento urbano da cidade.

Sim, eu sei, a maioria desses pontos fogem de nossas mãos e de nosso alcance. Mas também penso que sempre existem maneiras de ajudarmos, e começarmos a amar a nossa cidade, a cuidar bem dela e a exigir que ela seja melhorada, cuidada e respeitada, é uma delas.

Vira e mexe me alegro ao ver alguma matéria sobre moradores de bairros que se uniram para reformar uma pracinha para as crianças brincarem, ou lutaram para que um parque não fosse destruído.

Aliás, devemos prestar atenção às crianças, os grandes usuários das cidades de amanhã. Como podemos ajudá-las a cultivar esse sentimento de amor, de pertencimento, de respeito? Qual o nosso papel nisso? A nossa responsabilidade?

E, quem sabe, ainda não veremos muita coisa mudar?

[fonte da imagem de feature]